• Lohany Sorgen

MODA PARA TODOS

Como e porque marcas devem se preocupar com todos os tipos de corpos


Sair do hospital depois do acidente e perceber que suas roupas não serviam mais: esse foi o primeiro choque e um dos muitos desafios que Michele encontrou. Amante moda desde pequena, sempre esteve conectada com esse mundo e gostava muito de desenhar. A conexão maior surgiu quando michele percebeu que poderia transformar roupas e comunicar a partir delas. Visitava o guarda roupa dos pais e criava novas formas de usar uma mesma peça. Com 24 anos, Michele sofreu seu acidente e, assim, do dia pra noite, acordou em um corpo completamente diferente. Segundo ela foram precisos uma sequência de acontecimentos e frustrações para ela entender que o mundo não é um lugar de acolhimento de pessoas com deficiência. Foi percebendo que dentro da moda e dentro de seu próprio guarda roupa, nada encaixava em sua nova vida. Em lojas, não conseguia acessar as roupas de maneira autônoma para fazer um processo de escolha. Assim, entendeu que o mercado não foi feito para pessoas como ela.




“Eu vim de um lugar onde eu tinha um corpo padrão e fui parar num corpo totalmente excludente” - Michele Simões, estilista. Ficou paraplégica aos 24 anos.


Ao ser questionada sobre como ela lidou com todas essas questões, Michele diz que foi uma construção: “Demorei um certo tempo para entender quando eu me olharia no espelho e conseguiria me reconhecer como Michele, pois meu corpo tinha mudado, minha vida tinha mudado e tudo o que eu tinha no meu guarda roupa não dizia mais respeito a mim. Minhas roupas não serviam. Então, comecei um processo de imersão e, costumo dizer que foi algo que eu tive que ir atrás, em tentativa e erro saber o que conversaria com o meu corpo, apesar de não encontrar em nenhum lugar. Foi passo a passo até eu conseguir lidar e entender que a moda poderia ser uma grande ferramenta dentro da vida das pessoas com deficiência.”


Ao se deparar com suas condições, Michele não enfrentou problemas apenas na moda: “Temos que criar caminhos em todos os segmentos que planejamos usufruir, desde o momento em que você tenta fazer uma compra online e não tem informações que seriam úteis até o momento que você planeja uma viagem e o local não sabe nada a respeito das suas necessidades.” Sobre o principal desafio, ela diz que é o de não ter referências, as pessoas com deficiência acabam tendo que tomar a frente da situação para algo mudar.


MEU CORPO É REAL



Ao se deparar com um mundo onde ela mesma deveria tomar a frente das situações e buscar por acessibilidades dentro da moda, Michele criou o projeto “Meu corpo é real”, plataforma que conta com palestras, consultorias, workshops e peças acessíveis. “O projeto surgiu quando eu realmente comecei a voltar meus olhos pra área de moda e estudar como esse mercado funcionava. Me deparei com poucos recursos de informação, algumas marcas, mas sem o lado da produção de conteúdo que pudesse ser uma ponte de conectar consumidores com deficiência à marcas.” Com isso, entendeu que precisava dar voz ativa para consumidores com deficiência, que seria necessário desenvolver novas lógicas que pudessem protagonizar corpos com deficiência dentro da moda, por uma linguagem diferente. A parte mais legal de todo o processo? Michele diz que é a troca: ouvir e entender que aquilo pode trazer uma mudança efetiva para as pessoas. “Ao mesmo tempo me sinto muito feliz em poder fazer e promover novas formas de pensar moda para pessoas com deficiência e entender que a moda é um caminho para incluir pessoas no mundo, eu acredito que a moda é uma grande forma de comunicação e quebra de estereótipos.” Pensando nisso e sempre procurando se colocar no local de aprendizado, Michele sente que o projeto está num caminho coerente quando vê troca de aprendizados entre pessoas com e sem deficiência. “É uma conversa de mão dupla e esse é o momento onde eu olho e penso que o projeto está cumprindo com todas as propostas. É um eterno aprendizado, estou sempre pensando em como desmistificar uma série de relações. Afinal, você tem pessoas antes de suas deficiências. Pessoas diferentes.”


COMO A SUA MARCA PODE AJUDAR


Segundo Michele, as portas da maioria das marcas ainda estão muito fechadas.”Falta muito pro mundo se tornar um lugar inclusivo e principalmente as marcas que não estão preocupadas com isso.” Além disso, ela diz que pessoas com deficiência precisam lidar o tempo todo com excesso de informações e estereótipos, tendo sempre que fazer o que ninguém está disposto. Pensando nisso, Michele separou algumas dicas de como a sua marca pode ser inclusiva


  • Convide pessoas com deficiência para trocar com a marca (sem lugar de fala dos próprios consumidores, dificilmente se cria soluções coerentes)

  • Comece por algum recorte - o públicos de pessoas com deficiência é extenso e transversal, portanto estabelecer um recorte pode tornar o processo viável de começar a ser implementado

  • Siga perfis de pessoas com deficiência e acompanhe mais suas vivências

  • Projete conteúdos com acessibilidade




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