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Da Crise à Retomada: como a Pandemia da COVID-19 afetou o mercado da moda

Por Ana Luísa Ribeiro



A moda teve que se reconstruir com o isolamento social. Mas a pergunta que fica é: quem não passou por isso? Mudança de hábitos de trabalho que afetam a rotina, a hora de dormir e de comer. O nosso local de trabalho, a hora de tomar banho. Uso maquiagem ou não para a reunião? Será que preciso mesmo estar arrumada? Mas e se eu estiver arrumada demais? Será que vão ver que estou de pantufa? Todos os questionamentos que tivemos que enfrentar. Sem contar para quem tem crianças em casa que tem jornada até tripla. Com pandemia, mudança de hábitos, crises financeiras, de saúde e humanitária, em algumas regiões, a moda foi deixada de lado.


A verdade é que o mercado foi dado como não essencial. Sim, nós entendemos que não se trata de comida ou remédios. Mas se trata de pessoas em diversos aspectos e dimensões. Economicamente falando, a queda do setor foi de 74%, segundo dados do Sebrae. Menor apenas que os setores de turismo e economia criativa. Sendo que, hoje, há um pouco mais do que 1 milhão de CNPJs registrados como varejo de moda, o maior volume no segmento varejista. O fechamento de comércio de serviços não essenciais e a crise econômica causada pelo desemprego paralisou a atividade de produção, segundo dados do Infomoney no fim de março, onde a indústria têxtil teve uma queda de 91%.

Serviço não essencial que possui uma cadeia de trabalho que gera milhões de empregos ao redor do mundo. Mas, além de todos os números e percentuais, também traduz pessoas. A moda tem esse dom e legado de expressar a história, movimentos culturais e sentimentos. De gerar identificação e ressaltar identidade. Segundo a designer de Moda, Vitória Timm, são muito mais que peças de tecido ou acessórios. “A moda se configurou no momento em que as roupas deixaram de ser apenas um item de proteção do corpo. Hoje, usamos roupas, acessórios, sapatos e afins para pertencer socialmente, expressar nossos gostos e vontades, diferenciar-nos”. Então, em um momento de extremo desânimo, desesperança e descrença, foi a moda que se manteve ao lado de cada um no isolamento. Lançando novas tendências, como a comfy, para se adaptar. Ou virando motivo de distração e alegria, como o Tie Dye.


Não foram à toa que as tendências se destacaram na temporada. O conforto da calça de moletom para usar durante um dia de trabalho, acompanhada por uma pantufa, pode ter facilitado a vida de muitas pessoas em seus home offices. O Tie Dye pode ter sido motivo de risadas, de extravasar estresse excessivo pela condição mundial. A moda foi artifício de apoio psicológico, nostálgico e utilitário na vida de diversas pessoas ao redor do mundo. A designer explica sobre a situação. “A moda está presente em muitas áreas da nossa vida, tantas que as vezes nem percebemos. Mas no momento em que fomos privados de tantas coisas e passamos a ter um outro olhar sobre o que é realmente essencial, passamos a perceber o quanto a moda é uma ferramenta para extravasarmos nossos sentimentos e personalidade, começamos a sentir falta de usar esse recurso para poder colocar para fora o que somos”.

Vitória Timm faz suas previsões para o come back pós-pandemia: ao mesmo tempo que muitos esperam pela retomada com muitas compras da indústria, também veremos ainda mais valorização do comércio local.


“Tendências de comportamento de consumo mais consciente e priorizando o slow fashion continuarão ganhando força. Muitas pessoas passarão a valorizar o consumo local e produtos mais artesanais. Segundo Li Edelkort, temos a oportunidade de viver a partir de uma página em branco agora, revendo nossos valores de consumo.


Por outro lado, acredito que muitos outros estejam ansiosos para retomar o mesmo ritmo de consumo, ou até aumentar esse ritmo. As pessoas pensam e agem diferente, e hoje temos espaço para toda essa diversidade, por isso creio que teremos esses diferentes comportamentos.


Na moda, de uma maneira mais tangível, também podemos esperar essa dualidade: a tendência de conforto pode continuar e ir para a rua quase da mesma maneira que estamos vendo dentro das casas através das redes sociais. Muitas marcas têm apostado nisso, até mesmo para um cenário de retomada total e essa também é uma tendência coerente em partes, com o pensamento slow fashion. Entretanto, historicamente, temos casos em que a moda se torna um recurso para escapar da triste realidade após grandes eventos traumáticos. Por isso, assim como tivemos o New Look de Dior, após a Segunda Guerra Mundial, talvez vejamos pessoas e marcas investindo em uma estética maximalista para resgatar o sonho e a fantasia que estiveram de lado nesse período. Há espaço para todos esses comportamentos. Temos o fator mais importante: a imprevisibilidade do ser humano. Ou seja, tudo pode acontecer”.

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